


A Senhora dos Prazeres
Acrílico s/tela
40cmx30cm
2009
Zé - vocalista,
Martins - teclado,
Zeca - viola baixo,
Rodolfo - guitarra,
Miguel - bateria.
Reportório:
“Gita, 10000 anos atrás”
“Medo da chuva”
“MDC da minha vida”
“Aluga- se”
“Metamorfose ambulante” - Raul Seixas
“Frágil” - Jorge Palma,
“Saia indiscreta” - Filarmónica do Gil,
“Oye mi amor dos Maná”
“Semi tango dos Ena pá
“Lá vem o alemão e Robocop Gay dos Mamonas assassinas”
No dia 17 de Abril, após a inauguração da exposição do Rigo 23, de uma forma muito informal, surgiu uma surpresa muito agradável.
Policarpo Nóbrega, poeta e declamador, soltou a sua voz e declamou poemas no centro da sala do novo espaço da galeria, com os convidados em sua volta.
O primeiro poema foi dedicado ao pai do Ricardo Gouveia (Rigo 23) pelo homem sonhador e artista que foi: “Pedra Filosofal” de António Gedeão.
O segundo poema foi uma homenagem à mãe do Rigo23 que estava presente e que tão bem transpôs para o bordado alguns dos desenhos/pinturas do filho, com um poema da autoria do poeta Policarpo Nóbrega, publicado no livro "Abre-te ao Mundo" e que passou a ser um poema para todas as mães do mundo: “Mama”.
Por fim, declamou o poema de Eugénio Régio: “O Cântico Negro”dedicado ao artista Rigo 23 pela sua irreverência como artista plástico e pela sua forma de estar no mundo, pelos princípios que segue de humildade, de verdade, de justiça, de amor e solidariedade para com os que mais precisam.
A pedido de uma amiga da “Galeria dos Prazeres” que não conseguiu assistir a esse momento, deixo aqui registado, em parte, os poemas que foram declamados pelo poeta Policarpo Nóbrega.
PEDRA FILOSOFAL
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
In Movimento Perpétuo – António Gedeão
MAMÃ
Tu és como o sol
Que ao fim da tarde
Se esconde
Mas volta sempre
E mesmo ausente
Está sempre presente
E nunca nos deixa
às escuras
Pois em seu lugar
Qual dádiva divina
Deixa-nos
Um mar de estrelas
Um mar de estrelas
Que me faz lembrar
O teu belo sorriso
Policarpo Nóbrega
Cântico negro
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
José Régio
Nascido na Ilha da Madeira em 1966, Rigo tem se dedicado ao desenho e às artes plásticas desde a infância. Alguns dos primeiros desenhos que se lembra de fazer eram retratos de "dampers" que fazia nos versos de envelopes dos CTT, na estação dos Correios do Faial onde o seu Pai trabalhava. Os dampers, esses, trabalhavam dentro da ribeira.
Recentemente foi seleccionado para fazer uma escultura para a Universidade de San José na Califórnia, de homenagem a Tommie Smith e John Carlos, dois atletas dos Estados Unidos que ergueram os punhos com luvas negras aquando das Olimpíadas do México em 1968.
Nesta exposição Rigo partilha connosco alguns dos desenhos que o seu Pai, Gabriel Gouveia, fazia em papelinhos soltos enquanto trabalhava nos Correios e que, ao longo de meio-século, guardou meticulosa e humildemente numa pequena caixa de lenços.
Texto que consta nos marcadores de página de livro da exposição: "Caixa de Lenços" do artista Rigo 23.