segunda-feira, fevereiro 15, 2010

"Varando o barco"

Varando o barco 34x54 1965

domingo, fevereiro 14, 2010

sábado, fevereiro 13, 2010

"Homem das cestas"


Homens das cestas 34x54 1967

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

"Procissão"


Procissão 23,5x34 1964


terça-feira, fevereiro 09, 2010

"Procissão"

Procissão 54x78,5 1967



segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Vida e obra de António Aragão


Pintor, escultor, historiador, investigador, escritor e poeta, António Aragão foi um dos maiores vultos da cultura portuguesa, do século passado até aos dias da sua morte física, acontecida em 2008.

António Manuel de Sousa Aragão Mendes Correia nasceu em Portugal, na ilha da Madeira, em S. Vicente, a 22 de Setembro de 1921. Faleceu no Funchal a 11 de Agosto de 2008. Cedo quebrou as barreiras do isolamento geográfico para alcandorar-se aos palcos académicos e depois ganhar, com elevado mérito, estética, arte e técnica, um lugar de vanguarda na cultura portuguesa.

Licenciado em Ciências Históricas e Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e em Biblioteconomia e Arquivismo pela Universidade de Coimbra. Estudou Etnografia e Museologia em Paris, sob a orientação do Director do Conselho Internacional de Museus da UNESCO. Cursou no Instituto Central de Restauro de Roma, onde se especializou em restauro de obras de Arte e estagiou no laboratório de restauro do Vaticano. Foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris e Roma.

Homem de criatividade rica, irrequieto, polémico, inconformado, por vezes excêntrico até, deixou a sua marca pessoal indelével por onde passou. Era difícil não dar por ele quando metia mãos à obra, quer fosse na investigação da história e da etnografia, quer quando esculpia, pintava ou escrevia. A proporção do acervo que legou a Portugal, e em particular à Madeira, é muito mais rico, em quantidade e qualidade, do que o reconhecimento e merecimento que devia ter recebido da região e do país. Desse ponto de vista, ainda está por fazer -se a verdadeira homenagem a António Aragão, apesar de, ainda em vida e num gesto essencial, ter recebido da Câmara Municipal do Funchal uma rua da cidade com o seu nome.

Foi Director do Arquivo Regional da Madeira, e também Director do Museu da Quinta das Cruzes (Funchal). Era irmão de Ruth Aragão de Carvalho, falecida esposa do actor Ruy de Carvalho. É pai de Marcos Aragão Correia, Advogado de Leonor Cipriano.

Como investigador da História da Madeira, publicou: Os Pelourinhos da Madeira. Funchal. 1959; O Museu da Quinta das Cruzes. Funchal, 1970; Para a História do Funchal - Pequenos passos da sua memória. Funchal. 1979; A Madeira vista por estrangeiros, 1455-1700. Funchal. 1981; As armas da cidade do Funchal no curso da sua história. Funchal. 1984; Para a história do Funchal - 2ª Edição revista e aumentada. Funchal. 1987; O espírito do lugar. A cidade do Funchal. Lisboa. 1992.

Dos estudos realizados destaca-se as escavações no lugar do Aeroporto, onde se erguia antes o Convento quinhentista de Nª Senhora da Piedade, Santa Cruz, 1961.

Das escavações feitas resultou o levantamento da planta geral deste Convento Franciscano e o estudo das suas características tipológicas, além da exumação de variado espólio, do qual se destaca grande diversidade de padrões de azulejaria hispano -mourisca ou mudéjar, proveniente do Sul de Espanha, e também múltiplos exemplares de azulejaria portuguesa seiscentista e de setecentos, assim como elementos primitivos em cantaria lavrada – portais do convento, janelas, arco triunfal da igreja, condutas de águas, lajes tumulares, pavimentos, hoje depositado nos jardins da Quinta do Revoredo, Casa da Cultura de Santa Cruz,

Todos os trabalhos foram devidamente documentados com plantas rigorosas, desenhos e fotografias. Este trabalho encomendado pela Junta Geral do Distrito do Funchal foi entregue nesta Instituição e, por sua vez, na época, depositado, em parte, no Museu Quinta das Cruzes.

Na área da etnografia efectuou recolhas ao nível da música tradicional da Madeira e do Porto Santo, em 1973, em co-autoria com o professor e músico Artur Andrade, com divulgação em 2 discos L.P, em 1984.

Na área da literatura participou em acções colectivas, antologias, e outras manifestações significativas: Poesia experimental, 1964 e 1965. (revista de que é co-fundador); Visopoemas, 1965; Ortofonias (com E.M. Melo e Castro), 1965; Operação I. 1967; Hidra I. 1968; Hidra 2. 1969; Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa. 1971; Antologia da Poesia Concreta em Portugal. 1973; Antologia da Poesia Visual Europeia. 1976; Antologia da Poesia Portuguesa. 1940-1977. 1979; Antologia da Poesia Surrealista em Portugal; OVO/POVO. 1978. Lisboa e 1980, Coimbra; PO.EX. 80. Galeria Nacional de Arte Moderna, Lisboa, 1980 e 1981; Filigrama. (Revista de expansão internacional). Co-fundador. 1981, Funchal; Líricas portuguesas. Antologia. 1983; Poemografias. 1985; I Festival Internacional Poesia Viva. 1987, Figueira da Foz; Poesia: outras escritas, Novos suportes. 1988, Setúbal; Electroarte. Vala Comum. Lisboa. 1994.

A nível internacional realça-se a sua participação em Sevilha, 1980; em 1982, Itália e Brasil; 1983, Cuenca; 1984, Comuna de Milão, Itália; 1984, São Francisco, U.S. A. e Bacelona; 1985, Israel e New York; 1986, México e Sevilha; 1987, México e França; 1989, Itália e Paris; 1990, Siegen, Alemanha, México e Washington. U.S.A.; e 1992, Madrid.

Colaborou em diversas manifestações de Mail-Art and Exchange, divulgando os seus trabalhos em revistas da especialidade.

Escreveu no Comércio do Funchal; Línea Sud. Nápoles; Letras e Artes. Lisboa; Express; Colóquio - Artes/Fundação C. Gulbenkian; Diário de Notícias, Lisboa; Comercio do Porto; Espaço Arte. I.S.A.P.M. e DN-Funchal;

Na ficção destaque para: Romance de Isomorfismo, 1964; Um buraco na boca, 1971; Os 3 Farros (com Alberto Pimenta), 1984; Textos do Apocalipse, 1992.

Na área da poesia referência para: Poema primeiro, 1962; Folhema I e Folhema 2, 1966; Mais exactamente p(r)o(bl)emas, 1968; Poema azul e branco, 1971. Os Bancos, 1975; Poesia espacial POVO/OVO (áudio-visual), 1977; Matenemas, 1981; Pátria, Couves, Deus, etc, 1982; Joyciaba. In Joycina, 1982.

Para teatro escreveu o Desastre NU, em 1980, que foi Prémio Nacional.

Como artista plástico destacou-se tanto na pintura como na escultura. Na área da escultura realce para a Santa Ana, em cantaria rija, na Câmara Municipal de Santana, 1959; o Padrão / monumento alusivo ao V centenário da morte do Infante D. Henrique (vulgo “Pau de Sabão”), escultura em cantaria rija, integrada no projecto do arquitecto Chorão Ramalho, Porto Santo, 1960; Baixos-relevos, 2 painéis em cerâmica policroma, alusivos á faina marítima e à actividade agrícola. Mercado Municipal de Santa Cruz. 1962.

Na área da pintura tornou-se conhecido desde a década de 40, pelas diversas temáticas abordadas e exploração de técnicas diferenciadas. Realizou várias exposições em Portugal (Galeria Divulgação, Quadrante, Galeria III, Galeria Diferença, Fundação Calouste Gulbenkian – II Exposição de Pintura Portuguesa) e no estrangeiro – Espanha (Madrid, Sevilha, Barcelona); México, França (Paris); Itália (Roma e Turim) encontrando-se representado em colecções particulares e oficiais em vários países, nomeadamente na Fundação Serralves, em Portugal.

António Aragão concretizou um projecto artístico contemporâneo baseado em novas tecnologias, numa casa que lhe pertenceu, situada na Lapa, em Lisboa. O projecto enquadrava uma "associação de educação popular" com uma galeria de arte vanguardista, ao qual foi atribuído o MECENATO pela Secretaria de Estado da Cultura.

Antes da doença prolongada de que padeceu até à sua morte, António Aragão, de volta ao Funchal, pintou os seus últimos quadros, que constituíram uma série à qual intitulou "os monstros", uma verdadeira crítica corrosiva à hipocrisia dominante na sociedade.

As últimas exposições individuais de António Aragão foram realizadas na Madeira. Comissariados por António Rodrigues, a antepenúltima, em Abril de 1996, na Casa da Cultura de Santa Cruz, integrou 16 dos seus últimos quadros, e ainda uma selecção retrospectiva de 13 trabalhos, em diferentes técnicas, realizados nas décadas de 50 e 60 do século XX. A penúltima, Exposição Retrospectiva, teve lugar na “Casa da Luz”, no Funchal.

A última exposição de António Aragão antes da sua morte, ocorreu no Museu de Arte Contemporânea da Madeira (Forte de S. Tiago, Funchal).

A família de António Aragão doou ao Arquivo Regional da Madeira grande parte do seu espólio histórico.


«Muitos poemas, sobretudo os primeiros, foram bastante influenciados pela obra do António Aragão, o primeiro poeta experimental que descobri e cujo trabalho me fascinou ao ponto de aos 16 anos começar a criar também poemas “visuais”.»

Fernando Aguiar, Professor e Artista.


«António Aragão é uma das grandes figuras da cultura portuguesa do século XX. É dele, por exemplo, o motivo da fachada da Escola Francisco Franco, tendo deixado ainda magníficas cerâmicas - isto para além de ter sido um grande historiador, sendo de salientar o seu grande trabalho como Director do Arquivo Regional da Madeira na década de setenta.»

Rui Carita, Professor Catedrático de História e Coronel do Exército Português.


«António Aragão com toda a justiça foi reconhecido, publicamente, pela Câmara Municipal do Funchal, como sendo um dos mais importantes homens da cultura e das letras madeirense.»

Rui Nepomuceno, Advogado, Historiador, Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

domingo, janeiro 17, 2010

Um buraco na cultura!?


Um buraco na cultura... perdão! “um buraco na boca” é assim que se chama um dos romances editados de António Aragão e que estará à venda conjuntamente com outros livros do autor, durante a sua exposição que terá lugar na Galeria dos Prazeres (5 de Fevereiro a 14 de Março de 2010).


«uma vez o tipo olhou-me no desgosto da cara. depois perguntou como um traço a lápis: tem o seu bilhete de identidade em dia? como? pois claro que tinha. haviam-me avisado. e puz em cima da nitidez inquebrável de pergunta o que eu era envolto em plástico: uma fotografia a três quartos e desfavorecida. a meu ver eu era um pouco diferente. possivelmente mais parecido comigo. A cara menos redonda. O olhar mais possuído. mais ligado ao que pensava. tinha 42 de pescoço. era feio. atarracado. estás bera na fotografia. o pimenta rira-se com um significado ajustado à minha cara. Aquele riso. e choquei-me da enormidade descabida que representava a falta de semelhança da fotografia em comparação ao que queria de mim. com tão pouco de altura. bem medido e rotulado. ela vinha a cor dos olhos: castanhos. O lugar onde nascera. o nome dos pais. e lembrava - me dessa história do meu pai perdido por detrás da sua geração e o que corria acerca das mulheres que tivera e umas conversas de desvios de dinheiro. depois o sexo e a nacionalidade escritos um pouco abaixo. sobretudo essa espécie de vácuo que ficava disso tudo junto e posto de seguida. e o tipo não parava de exigir a sua força: é preciso uma certidão de nascimento. um atestado médico. as habilitações literárias. um certificado do regedor e o registo criminal. ainda a declaração do costume como não pertence a sociedades secretas. e todos os documentos entregues dentro do prazo estipulado.»


Agora, é o Cartão de Cidadão!


Extracto do livro de António Aragão, um buraco na boca (Livros cf - 1ª Edição - 1971).